sexta-feira, janeiro 29

Do Perigeu ao Apogeu


Por Bruno Jardim

"O amor é a única coisa que transcende o tempo e o espaço."
Dr. Brand em Interestelar

Deus tem dois livros: um obviamente é a bíblia sagrada. O outro é um livro que infelizmente a igreja não está muito acostumada a examinar. Trata- se de um livro anterior a Bíblia. Antes da Bíblia ser formada e concluída este “outro livro” já estava disponível. Aliás, tal livro está pronto antes mesmo da formação do homem.

Quem tem os olhos espirituais iluminados pela Graça de Deus é capaz de ler linha por linha e ter o discernimento do que Deus fala por meio deste outro livro sem ser a Bíblia.

É graças a existência dele, que não existe um só povo na terra para o qual Deus não tenha dado testemunho de Si, ainda que a Bíblia nunca tenha chegado nas mãos deles. Não houve uma única geração de seres humanos que não tenha recebido o testemunho de Deus através deste outro livro. A que livro estou me referindo? Ao livro da natureza, o livro da criação.

Isto não é de hoje, São Thomas de Aquino, Agostinho e Lutero por exemplo, já recorriam ao livro da Criação para nele encontrar a manifestação de Deus. Mas, de um tempo para cá a igreja foi se abitolando e perdeu este contato com a natureza.

A igreja se tornou mística demais. Se ouve falar de seres angélicas, querubins, serafins, arcanjos, sala do trono, harpa e etc. Tudo isso é muito bonito, mas até que ponto este apego da igreja nas coisas invisíveis não acaba nos desvencilhando daquilo que é concreto. Deus se revela no concreto. Paulo foi veemente em sua epístola aos Romanos quando ele diz que:

“Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas.” (Romanos 1:20)

Toda vez que olharmos para a Lua, o Sol ou as estrelas, Deus poderá está falando conosco. Ele fala através do arco íris, do vento, do mar, até por meio de um inseto! Nós é que não prestamos atenção.

No quarto dia da criação Deus resolve criar dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia (Sol) e o menor para governar a noite (Lua). Durante este processo de criação, Ele vai atribuindo funcionalidades para os luminares, tais como: iluminar a terra, fazer separação entre o dia e a noite, servir de sinais, para tempos determinados, para dias e anos. (Gênesis 1: 14 ao 19)

Tais luminares foram criados com funções previamente determinadas e as vem cumprindo fielmente até hoje.

Da mesma forma que o Pai colocou o Sol e a Lua nos céus com funções previamente determinadas, assim também Ele “nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus." (Efésios 2:6). "Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus.” (Efésios 3:10)

ELE é o nosso Sol da justiça (Malaquias 4:2). Aquele que tem luz própria e é fonte de tudo. Partindo desse princípio, de que Deus é o Sol da justiça e de que Nele estamos assentados nos céus, podemos atribuir à Lua uma representação da Igreja.

A Lua não cria sua própria luz como o Sol faz, mas brilha refletindo a luz que o Sol lança sobre ela. Portanto, é perfeitamente aplicável atribuirmos as mesmas funções dos luminares para a igreja nos dias de hoje. Assim como a Lua foi colocada na expansão do céu para governar na noite e assim iluminar a Terra, da mesma forma a Igreja tem a função de ser luz do mundo. (João 5:14)

No paraíso o homem desfrutava da comunhão imediata com Deus, e mesmo assim ele consegue a proeza de pecar se alienando da fonte de sua existência. Como consequência, o homem se viu completamente perdido em meio às trevas da ignorância espiritual e toda a humanidade mergulhou numa noite escura e duradoura. É neste cenário de escuridão pós Queda, que a igreja é colocada para resplandecer como astro, no meio de uma geração corrompida e perversa. (Filipenses 2:15)

Durante este período de trevas, Deus deu a Sua Lei e enviou profetas para que provessem alguma luz para a humanidade, servindo de guia: "O mandamento é lâmpada, e a lei é luz; e as repreensões da correção são o caminho da vida". (Provérbios 6:23)

A forma que ocorre está dinâmica da Igreja no mundo é a mesma que a Lua aplica por meio do Perigeu e Apogeu.

Perigeu e Apogeu são dois conceitos da astronomia, que indicam a menor distância (perigeu) e a maior distância (apogeu) de um corpo celeste em relação ao planeta Terra.

Todos vivemos um perigeu e apogeu existencial. Existem momentos que exigem de nós uma aproximação, e existem momentos que nos exigem um afastamento.

“...e foi tarde e a manhã, o dia quarto.” (Gênesis 1:19)

A humanidade está em transição, passando da tarde para manhã. De um período nebuloso para um amanhecer glorioso. Todo momento de transição requer cuidado e aproximação. A humanidade necessita do “perigeu da Igreja”.

Quando a lua se encontra no seu perigeu, ela pode estar aproximadamente 50 mil quilômetros mais perto da terra do que quando está no seu apogeu, o que modifica bastante a sua aparência. É neste momento que somos brindados pelo seu brilho esplendoroso.

A dimensão física da Lua não altera com o tempo, assim como o seu volume permanece igual. No entanto, o seu aspecto pode mudar, dependendo da sua fase. Quando está mais perto da Terra (perigeu), a Lua aparenta ser muito maior e mais brilhante.

Da mesma forma, o Amor de Deus não muda, Nele não existe sombra de variação. Porém, a percepção que o mundo tem deste Amor, depende da ação da Igreja. Se ela insistir em viver só para si, em reter a Luz que tem recebido do Sol da Justiça e não a refletir no mundo, a humanidade nunca terá acesso ao brilho deste Amor.

Quando a Lua se aproxima da Terra, por meio do perigeu, é que acontecem as chamadas marés altas, ou seja, é a aproximação da Lua que faz a maré subir. Por exemplo, no Egito tem o Rio Nilo, a aproximação da Lua faz com que a maré do mar suba e inunde o Rio Nilo. É como se a água que deveria ir em uma direção viesse na outra. Na cheia do Rio Nilo, as terras são irrigadas e as plantações florescem. A aproximação da Lua exerce poder no crescimento das plantações.

Da mesma maneira, a Palavra de Deus diz que “a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.” (Habacuque 2:14)

Como este enchimento vai acontecer? Quando a Igreja descer do seu apogeu, do seu “pedestal”, parar de ficar dizendo ao mundo: “Venha!” O mundo não tem que vir, a Igreja tem que ir, tem que se aproximar, ao invés de ficar esperando. Daí sim, toda a Terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor.

“E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações.” (II Pedro 1:19)

A ação do perigeu da Igreja, é uma ação contingencial, ou seja, é pratica, necessária, mas não dura para sempre. Tem prazo de validade, é até que o dia amanheça e estrela da alva (que é Cristo) apareça. Lua é para governar a noite, passada a noite ela não se faz mais necessária.

A mesma transição que a humanidade, espiritualmente falando vive, cada indivíduo vive também. Todo ser humano está em um processo de transição, de um entardecer para o amanhecer. Portanto, ninguém pode abrir mão da presença de um perigeu, alguém que se aproxime a fim de ajudar na condução deste processo transacional. É neste momento que entra o Amor, que nos dá disposição de irmos além e onde os frutos do Espírito Santo se revelam.

A aproximação não é para sufocar, mas sim para tirar a pessoa do sufoco. Quando o propósito se cumpre, é o momento de afastar, de sair de cena, é a hora do apogeu. Hoje infelizmente as pessoas não percebem o tempo da vida: se afastam quando era para se aproximar, se mantém próximas quando era para se afastar. Para tudo há um tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo da Terra, tem o tempo de juntar e o tempo de espalhar. (Eclesiastes 3)

O Amor como Força Gravitacional

Foi Isaac Newton, pai da Física, que descobriu uma das forças mais misteriosas da natureza. Reza a lenda que ele estava descansando do almoço debaixo de um pé de maça, quando uma maçã despencou na cabeça dele e ele se perguntou: porque que as coisas quando não estão presas, não ficam flutuando, mas caem? Que força é essa que puxa e atrai? Ele descobriu então a força da gravidade.

Desde Isaac Newton para cá, homens como Einstein e tantos outros se debruçaram sobre isso e até hoje ninguém deu conta de entender como a gravidade funciona. Mas afinal, o que está por de trás da gravidade? O que se sabe é que corpos maiores atraem corpos menores.

O que faz com que a Lua esteja presa à órbita da Terra é o fato da terra ser um corpo maior. Logo, a Lua gira em torno da Terra e não consegue se desprender, ela é atraída pela gravidade da Terra, mas não cai. O mesmo ocorre com a Terra em relação ao Sol. É a gravidade do Sol que mantém a Terra em sua órbita.

Um dia chega um doutor da lei até Jesus querendo saber o que precisava fazer para herdar a vida eterna. A reposta para isto é simples: Amar a Deus acima de tudo e o próximo como a ti mesmo. Mas a questão é: quem é o meu próximo? Em outras palavras, a quem tenho obrigação de amar?
Jesus então vem com uma parábola:

“Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele.” (Lucas 10:34)

Jesus termina perguntando para aquele homem: “Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. (Lucas 10:36,37)

A gravidade representa a mais poderosa lei do universo, a saber, o amor. O amor atrai! Não devemos esperar que alguém se aproxime de nós, mas sim deixarmos nos atrair em direção ao outro, é isso que o Amor faz.

"...cada um considere os outros superiores a si mesmo.” (Filipenses 2:3)

Quando olhamos para outro com as lentes do amor, o enxergamos com sendo superiores a nós mesmos. Lembre-se- se que na lei da gravidade corpos maiores atraem corpos menores e os mantém presos uns aos outros. Da mesma forma, quando considero o outro como sendo superior a mim mesmo, ele ganha status de corpo maior, logo exerce sobre mim uma espécie de “força gravitacional do amor”, onde somos atraídos e movidos para servir uns aos outros, gerando assim uma relação recíproca. O Amor sempre toma a iniciativa! Nos leva a viver uma aproximação (perigeu) e nesta aproximação que o brilho da glória de Deus é manifestado.

Chegará o momento do Apogeu, onde falaremos como Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” (II Timóteo 4: 7) Até lá, temos muito trabalho para fazer, pois “a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.” (Romanos 8: 19-21)

O apogeu virá por meio do perigeu, o caminho para glória passa pela humildade.

3 comentários:

André Nascimento disse...

Eu só peço que a luz de D-S dissipe a escuridão. Que o Seu divino olhar divino
Rebrilhe em todos nós. Eu quero a luz, pois sem ela eu não posso enxergar quem está a minha frente e praticar o amor que D-S nos ensinou.

Fabio Jardim disse...

Interessante a questão da gravidade onde o um corpo maior atrai um menor. Eis a prova cabal de que o maior e o menor foram feitos para se atrairem e não para se destruírem. Imaginem o que será do mundo se o maior atrair e não trair ou usar o menor? Uma simples atitude dessa muda o mundo é só abrir mão do orgulho. Paz, Fabio

Adriana disse...

Texto maravilhoso! Linda reflexão!