sábado, outubro 10

Não é uma questão de ser Cauda ou Cabeça




“E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir”. Deuteronômio 28:13

Por Bruno Jardim

Logo após anunciar toda a Lei entregue por Deus, Moisés cita quais seriam as consequências na vida daqueles que fossem obedientes aos mandamentos do Senhor. E a principal das consequências é que o Senhor colocaria, os que assim agissem, como sendo cabeça e não cauda; estando em cima e não debaixo.

Ora, a sociedade da época estava mergulhada em profundas trevas, a Lei entregue por Deus foi um feixe de luz que serviu de direção e também de discernimento, levando o homem a perceber a diferença entre o que era certo e errado. O povo que desse ouvidos a Lei de Deus teria um diferencial por carregar a sabedoria divina e como tal, de forma natural, seria colocado por cima, como cabeça, se tornaria um povo a frente do seu próprio tempo.

Dentro do contexto do Antigo Testamento ser cabeça ou cauda, era uma forma de representar dois tipos de classes bem distintas, repare o que Isaías diz a respeito:


 “Pelo que o SENHOR corta de Israel a cabeça e a cauda, a palma e o junco, num mesmo dia. O ancião, o homem de respeito, é a cabeça; o profeta que ensina a mentira é a cauda. Porque os guias deste povo são enganadores, e os que por eles são dirigidos são devorados.” Isaias 9:14 – 15


O Ancião representava o homem de respeito, o cabeça. Já o profeta que ensina a mentira é a cauda. A verdade está para o que foi colocado por cabeça assim como a mentira está para o que é colocado por cauda. Muito mais que uma questão de posição social, trata- se de uma questão de caráter.


Ancião como Cabeça

Hoje em dia temos uma visão de ancião como sendo alguém idoso, incapaz de produzir alguma coisa. 

Infelizmente é este o tipo de tratamento que temos dado a eles, mas “no Antigo Testamento, por exemplo, ancião não significava apenas uma pessoa idosa, de cabelos brancos, no caso da vida. Além do significado comum, era-lhe atribuída a característica de pessoa respeitável, chefe natural da comunidade ou tribo; conselheiro ou juiz do povo.” (Conde, Emílio. Tesouro de Conhecimentos Bíblicos – História, Geografia e Usos e costumes do Povo de Israel, 10ª Impressão 2011, pág. 49. CPAD, Rio de Janeiro – RJ – Brasil).

Portanto, no Antigo Testamento o vocábulo “ancião” nem sempre está relacionado ao significado de homem velho, mas a um grupo social ou classe de pessoas respeitadas pela sociedade. Ainda que a maioria dos conselheiros fossem de idade avançada, essa não era uma condição para fazer parte do grupo de anciões.

Os anciões eram os chefes das tribos, os conselheiros do povo, pessoas respeitadas pela sociedade. Eles representam a figura de uma vida madura e frutífera, um portador da verdade, alguém que encarna o verbo da Palavra. Este é o perfil de quem foi chamado para ser cabeça.

Já dizia o Tio Bem Parker, isso mesmo, o tio do homem aranha: “um grande poder traz grandes responsabilidadesQuanto maior o conhecimento e o poder, maior a responsabilidade de servir. Ser colocado por cabeça não é para ostentar, mas sim para se sujeitar, servindo de meio para iluminar a vida daqueles que ainda estão em trevas.


Profeta Mentiroso como Cauda

“O dragão chicoteia com o rabo.” Bruce Lee

Profetas que ensinam a mentira não é uma invenção de hoje, é algo que vem desde o começo da história. O cajado que eles usam para “pastorear” seu rebanho é a cauda.

Por onde eles passam, multidões são arrastadas por conta de seus discursos enganadores. Só buscam devorar a lã de suas ovelhinhas. Tais profetas são como um dragão alado, veja que lemos em Apocalipse:

“E viu-se outro sinal no céu, e eis que era um grande dragão vermelho....E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra...” Apocalipse 12:3ª - 4ª

Da mesma forma que o grande dragão, que se chama diabo e Satanás, conseguiu enganar a terça parte do céu, muitos hoje em dia são enganados e chicoteados por sua cauda. Por onde estes profetas mentirosos passam não sobra nada, só o que fica são vidas machucadas e cheias de traumas espirituais.

Estes usam do nome de Deus para se servir, e não para servir. Entram no “ramo” da fé no afã de se elucubrarem, são movidos pela ganância, pois o que vale é ser cabeça e não cauda, a cegueira da cobiça não o fazem perceber que assim agindo estão justamente sendo cauda e assim vão precipitando a todos que os seguem.


A responsabilidade de ser Cabeça e o uso correto da Cauda


A responsabilidade daqueles que foram colocados por Deus por cabeça, ou seja, os que encarnam a Palavra e buscam viver baseados em sua luz é que “sejam irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo; retendo a palavra da vida...” Filipenses 2:15 -16ª

Quem está como cabeça tem a responsabilidade de ser portador das boas novas, de ser um mensageiro do futuro, é ser luz no mundo para que as nações andem à luz de Cristo.

Da mesma forma que Deus designou para Moisés setenta anciãos, para ajuda- lo a levar a carga do povo (Números 11: 14 o 17), Jesus designou setenta discípulos, e os enviou adiante, de dois em dois, para todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir (Lucas 10.1).

Ainda que a figura do grupo social dos anciãos tenha caducado, sua essência permanece vigente, pois em Cristo somos chamados para exercermos o ministério de ser cabeça, indo ao encontro dos anseios do mundo dispostos de dois em dois para servir em amor.

Interessante que da mesma forma, os nossos membros do corpo estão dispostos em pares, prontos para atender aos comandos da nossa cabeça. Paulo escreve: “Assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, formam um só corpo, assim é Cristo também” 1 Coríntios 12:12.

É através dos membros que nos relacionamos com o mundo exterior: com as mãos podemos socorrer e com os pés nos locomover em direção ao necessitado. Os membros estão voltados para fora do corpo, assim, como a igreja. Não é à toa que no vocábulo grego “ekklesia” (igreja), significa tirados pra fora”, ou “voltados pra fora.”

A igreja precisa exercer seu ministério de ser cabeça, indo adiante, estando a frente do seu tempo a fim de preparar o mundo para o Dia de Cristo, onde Ele se manifestará visivelmente e todo olho O verá.

O corpo precisa da cabeça e dos membros, assim como também precisa da cauda.

Não, não me refiro a cauda dos profetas mentirosos, está só serve para chicotear e machucar as pessoas. Mas, sim pelo fato da cauda exercer importantes funções no corpo, e isto fica claro quando analisamos os corpos dos animais. É uma analogia que serve perfeitamente para o cumprimento da nossa missão.

Em cada animal a cauda tem uma função, por exemplo: nos gatos e cães ela serve de equilíbrio na movimentação. No gado, serve para espantar insetos e proteger as genitálias e nos macacos, serve para locomoção.

Repare no preço que temos pago ao darmos ouvido a mensagem dos profetas mentirosos, que só querem nos levar a posição de “cabeça”, fazendo- nos esquecer que precisamos dos membros e da cauda.

Como caminhar sem equilíbrio no movimento, sem proteger a fonte dos frutos, sem espantar os insetos portadores de doenças? Tudo isto só é possível se pouparmos a cauda. Só que ao invés disto temos praticado “caudectomia” (ato de cortar a cauda) e o preço que pagamos por tal ação é o desequilíbrio.

A cauda é um lembrete de onde viemos, é um sinal de humildade, só que no corpo dos mentirosos, ela torna-se em um instrumento de soberba e opressão, já no corpo de quem é portador da verdade, ela serve de equilíbrio e proteção.  

Em Cristo, resgatamos o equilíbrio (cauda), a interação (membros) e a razão (cabeça). Entendemos que somos embaixadores da parte de Cristo, e que nos foi confiado o maravilhoso ministério da Reconciliação (1 Coríntios 5:20).

Diante disto, a questão de ser cauda ou cabeça torna-se irrelevante, pois “convém que Ele cresça e que eu desapareça” João 3:30.


2 comentários:

Felipe disse...

Muito bom o texto, bastante pertinente aos nossos dias, pois estamos cercados de falsos profetas anunciando que devemos ser cabeça e não cauda. Por conta, disso tem muita gente abandonando seu emprego e abrindo um negócio. Então, faço uma paráfrase de Paulo: porventura são todos empreendedores? são todos líderes? são todos profissionais liberais? rsrsr.

É bem verdade que no ocidente desprezamos o idoso, o ancião. No nossa sociedade que valoriza a produtividade, todo aquele que, a seus olhos, não tem mais energia para produzir é descartado, mesmo possuindo um conhecimento elevado acumulado durante sua longa existência. No oriente o ancião é respeitadíssimo, é tido como sinônimo de sabedoria e bom senso.

A cauda é muito importante, quem viu Crônicas de Nárnia percebe isso, quando um personagem perde a sua cauda e implora a Aslam, o leão, que faça sua cauda crescer novamente. O que seria dos micos sem sua cauda?

Fabio Jardim disse...

Elucidativo e equilibrado. Parabéns!