sábado, setembro 26

Face a Face com o Inimigo III – Soberba



Por Bruno Jardim

“Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.” Tiago 4:6

Na soberba da vida está o desejo pelo poder. Soberba é querer ser aquilo que não é. O contrário dela é a humildade. Soberba é o pecado em que o diabo caiu ao querer ser maior que Deus.

A Palavra de Deus diz que “O justo florescerá como palmeira; crescerá como cedro no Líbano.” Salmos 92: 12

Quero chamar atenção para o fato do crescimento do justo ser semelhante ao cedro no Líbano. O cedro cresce devagar, ele não tem pressa alguma para crescer. Devagarinho ele vai crescendo até atingir 40 metros de altura e 14 metros de diâmetro. Nos primeiros três anos de vida, suas raízes crescem cerca de um metro e meio de profundidade, enquanto que na superfície, durante este mesmo período, ele cresce somente cinco centímetros de planta. Somente a partir do quarto ano é que a árvore começa a crescer.

Deus trabalha de forma paulatina. Entre o dia e a noite, existe a tarde. Entre a infância e a vida adulta, existe a adolescência. Deus não queima etapas, Ele age através do Caminho e não por atalhos.

Para cada pessoa existe um tempo de crescimento, um tempo de dá frutos. “É como árvore plantada junto a corrente de águas que, no devido tempo, dá seu fruto, e cuja folhagem não murcha...”  Salmos 1:3.

As propostas indecentes do inimigo tem como objetivo, por mais paradoxal que seja, acelerar o nosso processo de crescimento, fazendo com que cresçamos antes da hora determinada por Deus.

O cedro busca primeiro ter suas raízes bem fundamentadas, e para tal, ele age de forma subversiva, pois antes de querer “crescer para cima” ele “cresce para baixo”. Caso o cedro crescesse os 40 metros para o qual ele está destinado, sem antes ter suas raízes bem firmadas no solo, ele seria uma árvore soberba e viria abaixo.

Em Efésios 3: 16 ao 19, Paulo diz: “Para que, segundo a riqueza da sua glória, (Cristo) vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e , assim habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.”

Paulo deixa claro que é no amor, onde precisamos estar arraigados, ou seja, fixados de maneira definitiva e profunda. Este processo de arraigamento, ou enraizamento, é silencioso e invisível pois não ocorre na superfície, mas sim no subterrâneo.

Assim como o cedro, o amor se preocupa primeiro em criar raiz, se estruturar para então só depois disso buscar crescer. O amor não é barulhento, não chama atenção para si e tão pouco se vangloria, antes, ele é discreto, cresce sem chamar atenção.

Deus trabalha no silencio, o problema é que somos extremamente ansiosos e logo queremos mostrar ao mundo o que temos, só que antes da hora. É no silencio que Deus faz Sua gestação, nos preparando, nos dando toda a firmeza necessária para suportarmos a altura que estamos destinados a atingir.  

Além de ser discreto, este processo de enraizamento também é doloroso. Pois a raiz precisa rasgar a terra, a fim de encontrar nela um lugar para fixar-se. Da mesma forma, o amor de Deus nos leva ao quebrantamento, rasgando e quebrando nosso coração rochoso, tirando o que não presta, adequando - o para receber o que Deus tem reservado.

Quebrar, parte- se do princípio de mexer naquilo que está enrijecido, é como um vaso que saiu da roda do oleiro. Enquanto ele está na roda em movimento, o barro fica maleável, permitindo que o oleiro dê ao vaso a forma que quiser. Mas, ao sair da roda, o barro endurece, o vaso se torna rígido. Uma vez duro, só tem uma maneira de fazer um vaso novo: quebrando-o. E isso dói, mas se faz necessário.    

Profundidade implica em intimidade. É no silêncio da intimidade que encontramos o discernimento da eloquência de Deus, sem intimidade o que resta é uma torre de Babel, uma grande confusão.

“O amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” Romanos 5:5b. O resultado deste amor derramado em nossos corações é a esperança que não 
confunde, mas gera entendimento.

Paulo completa dizendo que precisamos está arraigados em amor a fim de compreender qual seja a altura, profundidade, largura e comprimento do amor de Deus.

Quando se fala de altura, profundidade, largura e comprimento, está se falando de plenitude, é o preenchimento do espaço. O amor de Deus abrange a tudo, não sobra nada.

Deus tem preparado uma altura e um comprimento para cada homem atingir. Mas, para tal, precisamos considerar a profundidade e a largura respectivamente.

Altura e Profundidade

Não tem como experimentar a altura sem antes passar pela profundidade. É no ambiente silencioso e doloroso da profundidade que ocorre a gestação, não podemos jamais queimar esta etapa. Durante este processo é fundamental termos paciência e discernimento para não ficarmos confusos quanto ao que está acontecendo.

Devemos experimentar esta altura que Deus nos preparou, mas sem perder o chão de vista.

Lembro-me da história de Ícaro, na mitologia grega, Ícaro era filho de Dédalo, um dos homens mais criativos e habilidosos de Atenas, conhecido por suas invenções e pela perfeição de seus trabalhos manuais.

Dédalo projetou asas, juntando penas de aves de vários tamanhos, amarrando-as com fios e fixando-as com cera, para que não se descolassem. Estando o trabalho pronto, o artista, agitando suas asas, se viu suspenso no ar. Equipou Ícaro e o ensinou a voar.

Então, antes do voo, Dédalo advertiu seu filho de que deveria voar a uma altura média, nem tão próximo do sol, para que o calor não derretesse a cera que colava as penas, nem tão baixo, para que o mar pudesse molhá-las.

Ícaro deslumbrou-se com a bela imagem do sol e, sentindo-se atraído, voou em sua direção, esquecendo-se das orientações de seu pai. A cera de suas asas começou rapidamente a derreter e logo Ícaro caiu no mar e morreu.

Temos que voar com as asas do Altíssimo. Deus não tem limites, mas Ele nos deu limites. Nossa atitude deve ser compatível com a altitude que podemos suportar. Portanto, antes de querer voar precisamos cavar, a fim de aprofundar nossas raízes.

Comprimento e Largura

Se a altura diz respeito ao poder e a profundidade ao preparo, quando se fala de comprimento, diz respeito a validade, a durabilidade daquilo que Deus tem para fazer em nossas vidas.

Se estamos enraizados em amor, logo os frutos provenientes desta árvore são eternos, pois cada árvore frutifica conforme sua espécie. Se o amor é eterno, logo, as obras de Deus realizadas em nós, em amor, possuem um comprimento, uma validade que rompem com o nosso horizonte existencial.

Uma vida que não é vã, mas que cumpre com o seu propósito, é uma vida que continua ecoando mesmo depois que morre. São como as estrelas, que mesmo depois de morta, ainda sim continuam nos presenteando com seus brilhos.

Se para a altura existe a profundidade, para o comprimento existe a largura.

Largura diz respeito a abrangência, ou seja, enquanto estamos vivendo para cumprir com o propósito da nossa vida, temos que entender quem será atingido dentro do raio de ação da nossa atuação. Quem está inserido nele? Quem será beneficiado?

Ao sair em direção do comprimento do amor, devemos prestar atenção em quem está inserido na largura deste mesmo amor, isto é, se preocupar em amar ao próximo.

Amar ao próximo não se resume apenas a quem está no mesmo tempo e espaço que o nosso, mas também a quem virá depois de nós. Diz respeito as futuras gerações. Amar é viver de forma sustentável, garantindo que o próximo (de hoje e de amanhã) também tenha condição de desfrutar dos recursos desta terra. A largura está atrelada ao comprimento.

Poder para Prover

O que Deus faz em nós é pensando no bem de todos. Todo poder que Ele nos dá é para que seja uma meio pelo qual possamos prover. Ou seja, Deus nos coloca em uma posição de poder para sermos um canal de provisão. Fomos chamados para servir, toda sabedoria e poder é para atingir este fim.

Deus pega o menor e transforma no maior, assim como Ele faz com o grão de mostarda, que “embora seja a menor entre todas as sementes, quando cresce, torna- se uma das maiores plantas e atinge a altura de uma árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer os seus ninhos em seus ramos.” (Mateus 13:32)

Repare que no fim, tudo o que Deus faz em nós é pensando em servir ao outro. Certa vez, o filósofo positivista Augusto Comte disse que deveríamos “saber, para prever a fim de prover.”

Encontro eco com a postura de José do Egito, que após ter sido vendido como escravo pelos irmãos, Deus o levanta dentro do Egito, dando- lhe poder e sabedoria no que tange a administração de recursos. Toda esta sabedoria o levou a prever a fim de prover.

Durante a seca, que atingia toda a região, Jacó envia seus filhos para comprar mantimento no Egito. Ao chegarem ao Egito, encontram-se com José, mas não o reconhecem, porém José os reconhece e ao invés de se usar todo aquele poder para se vingar de seus irmãos, ele o usa para trazer provisão, veja o que ele diz:

“Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês.” Gênesis 45:5

Que senso de propósito! Provisão tem a ver com pro atividade, é preparar de antemão, é pensar no ponto futuro, é ser enviado adiante a fim de prover. Uma vida de humildade nos leva a viver em função de Deus e do próximo.

Para alcançarmos a altura, precisamos da intimidade e da profundidade, ou seja, oração. Ao atingir o comprimento do amor, precisamos nos importar com as pessoas que estão inseridas na largura, ou seja, ação. Oração e ação, profundidade e largura, são os meios para alcançarmos a altura de Deus e o comprimento do próximo em amor e humildade, sem soberba.

Se a soberba nos levar a ser o que não somos, a humildade nos leva a alcançar aquilo pelo qual Cristo nos alcançou.


Um comentário:

Felipe disse...

Belíssimo texto. Lições preciosas para nossa vida. Que Deus continue derramando sabedoria e revelação para instruir todos aqueles quanto desejarem o conhecimento do Altíssimo.